Continuo querendo ser acionista da CBF
Por Rodrigo Monteiro de Castro
Algumas pessoas que leram o post “Eu quero ser acionista da CBF” mandaram-me mensagens com perguntas que podem ser divididas em quatro grupos: (i) custos da abertura de capital; (ii) problemas decorrentes da abertura de capital; (iii) alternativas à abertura de capital; e (iv) intenção dos dirigentes atuais de profissionalizar o futebol brasileiro. Passo a comentá-las, inversamente à ordem apresentada.
Intenção dos dirigentes
Comentário recorrente, com o qual concordo: não parece haver a menor intenção de se modernizar a administração do futebol brasileiro, a começar pela confederação, passando pelas federações e clubes.
Aliás, o sistema de indicação de diretores é a prova da dificuldade de se mudar o formato do futebol nacional, uma atividade que acaba sendo utilizada para realização de projetos pessoais dos dirigentes. Tal sistema insiste em se manter vivo, apesar da presença, em alguns clubes, de pessoas reconhecidamente bem sucedidas profissionalmente.
Porém, mesmos estas pessoas – administradores, publicitários, advogados etc. -, por mais bem intencionadas que sejam, por mais que amem seus clubes, ainda que trabalhem sem nada cobrar, não deixam de realizar algo para satisfação de seus próprios desejos, para desfrutaram de certas regalias, algumas vantagens e, evidentemente, pelo poder.
Daí a constatação de que pessoas que se dedicam profissionalmente a, por exemplo, atividades ligadas ao mercado financeiro e de capitais, ou que advogam ou assessoram grandes empresas, muitas delas de capital aberto, são, estas pessoas, refratárias à idéia de profissionalizar o futebol.
Aqui, no duelo entre o interesse pessoal e o ideológico, vence o pessoal, de lavada.
Daí a importância de se debater publicamente o tema.
Alternativas à abertura de capital
Uma alternativa à abertura de capital - e menos custosa -, seria a negociação direta com um fundo de investimento (ou quem tivesse interesse em associar-se ao empreendimento), que passaria a ser acionista da empresa detentora dos direitos de exploração dos ativos ligados ao time de futebol.
Neste caso, em vez de se oferecer aos torcedores e ao público em geral a possibilidade de serem acionistas do time de coração, o negócio se realizaria entre o clube e o futuro acionista.
Ambos avaliariam o valor do negócio, a participação que o futuro acionista teria e quanto pagaria por ela, e aí executariam a transação. Aliás, a melhor forma de execução seria via aumento de capital da empresa, ficando estes recursos integralmente no caixa, para futuros investimentos.
Este sistema apresenta uma vantagem e uma desvantagem, que merecem destaque.
A vantagem é que, antes de investir em um determinado empreendimento, um investidor negocia planos de aplicação dos recursos e de metas, orçamentos e a forma como a empresa será administrada. Assim, reduz-se o espaço para o amadorismo e para a utilização do clube para fins pessoais.
A desvantagem é cultural. Imagino que “nós” não estejamos prontos para aceitar que nossos clubes de coração estejam à venda, mesmo que parcialmente, e que o comprador seja um – ou alguns – empresário ou investidor.
Problemas decorrentes da abertura de capital
O problema mais comentado refere-se ao controle da empresa que abrirá o capital. Resumidamente, diz-se que o clube correrá o risco de passar a ser controlado por capitalistas selvagens, mais interessados no lucro e pouco – ou nada – preocupados com o torcedor, com a tradição do time.
A afirmação é parcialmente verdadeira.
O acionista deve preocupar-se e exigir que a empresa gere lucro. E o distribua, evidentemente.
E para que tenha lucro, a empresa deve atrair a atenção e o interesse de seus consumidores. Consumidores que se confundem, em sua maioria, com torcedores.
Logo, se a empresa despreza o torcedor, a tradição, etc., assume o risco de perder seu consumidor e, via de conseqüência, sua receita. E com a queda da receita, o lucro.
Daí poder-se afirmar que a existência de acionistas capitalistas não necessariamente implica o fim da relação passional entre clube e torcedor. Pelo contrário; a paixão é por si só a garantia de consumo - característica única deste mercado.
Mas para quem ainda não se sente confortável, fica aqui uma sugestão: ao abrir o capital, pode-se adotar um modelo em que o clube detenha a maioria das ações com direito a voto, situação que afasta a possibilidade de um “capitalista desumano” controlar a empresa e tomar decisões esdrúxulas como a mudança da sede do Botafogo para São Paulo ou a do Santos para Recife.
Custos da abertura de capital
A abertura de capital implica custos, nada módicos, com assessores, advogados, auditoria externa, estruturação da “empresa”, publicações legais, marketing etc.
Além dos custos iniciais, há outros, recorrentes, que devem ser avaliados previamente.
Por exemplo, se a empresa aderir a um dos segmentos diferenciados de listagem mantidos pela BOVESPA, como o NOVO MERCADO, assumirá o compromisso, voluntário, de manter práticas de governança modernas e de oferecer ao investidor uma quantidade maior – e melhor – de informações.
Tudo isso gera custo. Mas gera retorno, também, pois o investidor sabe que se administra e fiscaliza a “empresa” apropriadamente.
Com este post, então, pretende-se mostrar que a abertura de capital pode ser uma solução para o futebol brasileiro, mas não a única, e que, com ela, surgem novas dificuldades, as quais deverão ser bem avaliadas previamente, de modo a evitar o insucesso do projeto.
E por estar convencido de que o futebol brasileiro pode ser um ótimo negócio, que continuo querendo ser acionista da CBF.



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IDIOTICE SIDERÚRGICA E COMPLETA.
Comentário de Raja — 03/05/08 @ 10:02
“Aurélio” define siderúrguca assim: “Estabelecimento ou empresa siderúrgica”. Já siderúrgico com as seguintes palavras: “Respeitante à siderurgia”. E “metalurgia”: “Metalurgia do ferro e do aço; arte do ferrador”. Seu comentário, Raja, ao menos obrigou-me a ir ao dicionário.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 03/09/08 @ 22:07
Rodrigo, excelente o tema que você buscou e a forma que o explorou. Tenho apenas uma ressalva: eu só gostaria de ser acionista da CBF caso o controle não estivesse na mão da quadrilha do Ricardo Teixeira. Senão o que certamente aconteceria é que ogrupo no controle pegaria o nosso investimento, desviaria verba pro exterior e reportaria “prejuízo” (como ele aliás tem feito todos esses anos). Lembra dos 500 mil do Zagallo? De todas as acusações de balanços suspeitos? E os contratos aparentemente ruins, mas que nós podemos imaginar que geram comissões pagas por fora no exterior? É muito fácil para uma organização como a CBF, que recebe receitas dos países mais variados (ex. amistosos), desviar as verbas.
Comentário de Werner — 03/05/08 @ 11:32
Werner: a história corporativa mundial coleciona exemplos de escândalos, como o da Enron, nos Estados Unidos, e o da Vivendi, em França. Faz parte, e isso não deixa de ter um efeito educativo, especialmente se os culpados pagarem por seus erros. Por outro lado, investidores, quando detectam problemas administrativos, dirigem seus recursos a outros alvos. Você se lembra de quando os controladores da Gerdau resolveram “extrair” recursos da companhia cobrando-lhe pelo uso da marca? Então, esta forma de pressão, esta possibilidade de penalizar a companhia não existirá enquanto o sistema não mudar. E com a mudança virá a sujeição dos administradores a regras severas, inclusives de natureza penal.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 03/09/08 @ 23:21
Meus caros investidores, vocês têm que investir em empresas, nas bolsas de valores ou em fundos financeiros. Futebol não é para dar lucro. Só os idiotas pensam assim e vejo que em certa e estranha cidade do sul do Brasil há muitas pessoas que pensam que futebol tem que dar lucro. Essas pessoas ouvem os gringos contarem uma bela estória, ficam encantadas e saem repetindo sem pensar. São psitacídeos, repetem o que ouvem sem pensar no que estão falando. São e serão sempre uns derrotados, chorões, reclamões e chatos. Deixem o futebol em paz, vão procurar outros divertimentos e deixem em paz quem gosta de bola rolando e bola na rede. Burrice tem limite.
Comentário de Raja — 03/05/08 @ 12:45
Para você, a parte final do poema de João Cabral de Melo Neto, denominado “O corredor de vulcões”: “que até minha janela de Quito/com seu cone perfeito e de neve,/vem lembrar-me que a boa eloquência/é a de falar forte mas sem febre.”
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 03/09/08 @ 23:31
Os dirigentes são soberanops nos clubes. E nenhum quer profissionalizá-lo, recebendo salários altos após isso. A questão é: por que preferem isso? Ser dirigente amador não remunerado não pode ser melhor que ser administrador altamente remunerado, num clube com gestão empresarial que lucra alto, ao contrário das receitas ridículas de hoje. pra mim, esses cartolas são uns corruptos que não querem receber salário, pois LUCRAM muito, ganhando por fora, com negociações e acordos ilícitos.
Comentário de Gil Francisco — 03/05/08 @ 16:02
Gil: em minha opinião, muitos dos cartolas atuais não seriam diretores de empresas, pois não têm capacidade. Por isso se agarram aos seus cargos, às suas regalias, tais como ingressos gratuitos, viagens internacionais, etc.
Outros talvez ganhem (lucrem), apesar de vedações estatutarias, com os cargos que exercem. Aí revela-se mais uma fragilidade do sistema atual: falta de transparência, de fiscalização. É uma pena. Veja o exemplo da VALE: era grande antes; hoje, é um gigante. O futebol brasileiro poderia ser muito maior. Se houvesse interesse.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 03/09/08 @ 22:25
Interessante essa sugestão.
O que acho ser o maior problema é o clube cair na mão de empresários gananciosos.
E que possa até leval a falência do clube.
Mas desse modo “jurassico”, no qual, é governado nosso futebol não dá para continuar. Quando se toma uma iniciativa sempre tem seus riscos, o negocio é assumir esses riscos e adotar esse novo sistema.
Comentário de Leandro — 03/05/08 @ 21:07
Lenadro: repito o exemplo citado acima: falava-se do risco que se correria com a privatização da VALE. Mais um: do BANESPA. E como estes há muitos outros que demonstram que, via de regra, quem investe está atrás de lucro, não de espoliação. É verdade que há, também, gente mal intencionada, como, demonstra a recente história corporativa (Enron, nos Estados Unidos, e Vivendi, na França). É o risco que se deve correr. Mesmo assim, não me parece, este risco, maior do que o risco que se corre, hoje em dia, deixando a administração de tão importante patrimônio ao cuidado de não-profissionais.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 03/09/08 @ 22:36
Leandro: permita-me corrigir a grafia de seu nome. Leandro, pois, é o que pretendi digitar.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 03/09/08 @ 23:35
Rodrigo, muito bom o artigo. Os clubes assim como a CBF estão muito distante dos conceitos de governança corporativa e transparência…
Raja, porque tanto ódio no seu coração? Desde quando a CBF é sobre paixão do futebol e não dinheiro?… tss tss tss
abraço ao Rodrigo!
Comentário de Coca — 03/06/08 @ 0:04
Coca: cada vez mais distantes: 2015, na melhor das hipóteses. Retribuo o abraço.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 03/09/08 @ 22:40
Bom texto Rodrigo, parabéns…
Agora, dá calafrios pensar no clube como empresa…
OBS.: Raja… meu Deus você é realmente fraco e ataca um texto que, provalvelmente, não teve a capacidade de entender… Pobre coitado… Vai ler o blog do Milton Neves que você ganha mais…
Abraço Rodrigo!
Doug
Comentário de Doug — 03/06/08 @ 13:15
Doug: e você não tem a mesma sensação quando pensa que seu clube de coração, sua federação e a confederação são administradao por não-profissionais? Colocando uma opção ao lado da outra, ou seja, o sistema atual, absolutamente isento de fiscalização, ao lado de uma opção em que os clubes se sujeitassem a regras claras, a um órgão regulador etc,
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 03/09/08 @ 22:45
Doug: continuo a resposta pois, inadvertidamente, apertei a tecla “send”. Então, como dizia, como empresa, de verdade, os clubes estarão, penso eu, em mares menos revoltos que os atuais. Ou será que o sucesso de campeonatos como o espenhol e o inglês aconteceram por acaso? Quantas copas venceram os dois países nos últimos 40 anos? Quantos garotos imploram camisas de clubes destes países, apesar da falta de títulos? O futebol, lá, é um negócio; como aqui, com uma diferença: a partilha.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 03/09/08 @ 22:51
Meu amigo, você está correto. Porém, a questão é: em menos de cinco anos, nenhum clube do Brasil terá condições, sequer, de fazer um registro na CVM. Abrir capital demora, principalmente em se tratando de emrpesas completamente desestruturadas, como so clubes. Além disso, o mercado não está vendo com bons olhos, nesse momento, investimentos de tão alto risco. Basta olhar o número de empresas que desistiu, nos últimos meses, de continuar com seus IPOs.
Abs!
Comentário de Rodrigo Caetano — 03/06/08 @ 18:21
Rodrigo: A desistência foi grande, você tem razão. Mas isso não impede que boas empresas, com boas propostas, se lancem ao mercado. Justamente em um momento de poucas opções que os onvestidores, se detectarem uma alternativa de investimento, direcionarão seus recursos para ela. A CBF, por exemlo, seria uma delas. O São Paulo também. O Flamengo, idem. Não?
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 03/09/08 @ 22:56
Parabéns pelo post, Rodrigo. É um belo modelo, que poderímos aplicar também ao carnaval carioca e às escolas de samba do RJ. Afinal, além de precisarem de dinheiro, mais do que ninguém elas entendem de balanço.
Raja: Você tem razão. O problema é que este é o país dos psitacídeos (família de pássaros que inclui canários, papagaios e afins), tanto que a nossa esquadra é chamada por aí de seleção canarinho. Sempre achei que o apelido viesse da cor da camisa, mas só agora me ocorre que as origens estão nessa mania nacional de papagaiar o que os europeus/americanos fazem.
Por isso, guys, vamos fazer o IPO as soon as possible e começar torcer pra que a nossa seleção psitacidinho traga o hexa pra casa!
Comentário de Porfirio Caetano das Neves — 03/07/08 @ 10:24
“Porfirio”: você não trai seus princípios liberais ao propor o modelo ao carnaval carioca. Sinceramente, não sei se economicamente a sua proposta se sustentaria. Você, por exemplo, compraria algum produto da Mangueira que não fosse o cd com as melhores canções de todos os tempos? Aliás, taí uma combinação de vanguarda: Bernard Shaw, Brunello e Jamelão. E se houver espaço acrescenta-se o Olavo de Carvalho, para sambar, vestido de índio.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 03/09/08 @ 23:10