Eu quero ser acionista da CBF!
Por Rodrigo Monteiro de Castro
Um sintoma da falta de profissionalismo na administração do futebol brasileiro é a miopia em relação às possibilidades de financiamento da atividade “produtiva” dos clubes, ou seja, das categorias “amadoras” e profissional, geradoras, a curto, médio e longo prazos, de receitas.
Costuma-se ouvir, da boca de alguns diretores de clubes, que a ausência de investimentos decorre da extinção do “passe”, única forma capaz de garantir o retorno do capital empregado na formação de jogadores.
Discordo.
Mesmo antes da tardia alforria, eventuais investimentos, quando feitos, eram pontuais e fruto de atos isolados praticados por líderes idealistas ou populistas, que procuravam deixar suas marcas pessoais na história de seus respectivos clubes.
Não existia planejamento e os craques e títulos vinham em função de uma série de fatores externos ao controle de quem, em tese, deveria planejar, comandar, decidir e direcionar os negócios profissionalmente.
Por isso que clubes como o Corinthians e o Palmeiras amargaram longos anos sem vencer campeonatos importantes.
E justamente por adotar uma gestão relativamente moderna que o Palmeiras não apenas pôs fim ao jejum, como montou um esquadrão inesquecível - um dos melhores que presenciei ao vivo -, inegavelmente vencedor.
A experiência palmeirense estava longe de ser a mais adequada, mas imaginava-se que teria o condão de levar o futebol brasileiro a uma nova era. O contágio, porém, não ocorreu, e a esperada evolução para um modelo realmente profissional ficou no papel.
Quinze anos se passaram até que uma nova janela se abrisse, tudo indicando que, novamente, os dirigentes nacionais, mais preocupados com a manutenção de poder e de seus (pequenos) privilégios, não a aproveitarão.
Em 2007, o fluxo de capitais para países como o Brasil parecia não ter fim, motivo pelo qual muitas empresas resolveram abrir seus capitais, atraindo parte deste fluxo.
Ao abrir o capital, uma empresa pode optar por emissão primária, secundária ou mista de ações.
A primária significa que se criam novas ações, sendo que o dinheiro obtido com a oferta ao público vai integralmente para o caixa da empresa. A secundária significa que se oferecem ao público ações já existentes, de modo que o produto da oferta vai para o bolso dos acionistas que as vendem. Na mista, o dinheiro tem dois destinos: a empresa e os acionistas, respectiva e proporcionalmente.
De acordo com informação obtida no site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) – http://www.cvm.gov.br -, em 2007 foram registradas 59 ofertas primárias de ações, com volume de R$ 33.135.835.406,02, e 44 ofertas secundárias, com volume de R$ 34.121.298.031,60, totalizando 103 registros para uma oferta total de ações avaliada em R$ 67.257.133.437,62.
Registraram ofertas primárias ou secundárias empresas dedicadas aos mais diversos ramos de atividade, tais como construção civil, administradora de shoppings, tecnologia e varejo. Até a Bolsa de Valores São Paulo (Bovespa) e a Bolsa de Mercadorias e Futuros (BMF) deixaram de ser associações civis, tornaram-se sociedades anônimas, abriram seus capitais e passaram a ter suas ações negociadas em bolsa, acessíveis ao poupador comum.
Apesar do interesse do investidor estrangeiro por quase toda empresa que ia “a mercado”, inclusive algumas porcarias, nenhum clube de futebol aproveitou a onda.
Ir a mercado significa recursos relativamente baratos para investir em categoria de base, em jogadores, em marketing, em estádios etc.
Imagine-se o apelo que teria a abertura de capital do Corinthians, um clube abalado moralmente, mas com duas armas poderosíssimas: a paixão e o tamanho de sua torcida.
Ora, como dito, se tivesse aberto seu capital, o clube paulista teria arrecado dinheiro para investir em jogadores, que provavelmente trariam, já em 2008, um bom retorno com a venda de produtos ligados a sua marca, e que contribuiriam para aumentar a curiosidade do público nas cidades onde, pela primeira vez, o time passasse.
Pensando a médio e longo prazos, o mesmo Corinthians poderia utilizar os recursos obtidos com a oferta de ações na melhoria de sua estrutura, construindo um verdadeiro centro de treinamento, e com isso formar mais e melhores jogadores, os quais poderiam render expressivo retorno sempre que um clube estrangeiro resolvesse contratar um deles, depositando o valor da cláusula penal a que se refere o art. 28, parágrafo 5º. da Lei 9.615/98.
Dito de outra maneira, administrada de forma moderna, por executivos profissionais, e não por cartolas, militantes de carteirinha, que, em tese, não são remunerados pelo exercício de suas funções, uma empresa como o Corinthians (mesmo na segunda divisão do campeonato brasileiro), ou o São Paulo, o Grêmio, o Cruzeiro ou o Flamengo (ou qualquer outro clube de futebol com alguma projeção) não teria limites para inovar, para surpreender, para instigar a paixão do torcedor, e, consequentemente, para lucrar com a venda de novos produtos.
Tais executivos profissionais poderiam, então, agir como agem em empresas, sem preocupação com a militância, mas orientados ao lucro, e criar, por exemplo: uniformes comemorativos para jogos importantes, com tiragem limitada; parceira com montadoras de veículos para lançamento de modelos identificados com o clube; pacotes turísticos para acompanhar o time em certos campeonatos (ou certos jogos, ou fases do campeonato); desenho animado concebido a partir da história e ídolos do clube; revista em quadrinhos contando a estória de grandes jogos ou de campanhas bem sucedidas; livros e dvd`s comemorativos; álbuns de figurinhas; criação de times de veteranos para jogar contra times de empregados de empresas etc.
Quanto aos dirigentes atuais, continuariam onde estão: na direção dos clubes, que, por sua vez, passariam a acionistas da empresa que abriria seu capital. Para tanto, bastaria que a maioria dos associados dos clubes, reunidos em assembléia geral, aprovasse a utilização de bens patrimoniais desportivos ou sociais para integralizar capital da empresa, a que abriria o capital.
O mais interessante é que tudo o que se disse aqui se aplica à CBF.
Imagine, então, se o brasileiro pudesse ser acionista da CBF, ganhar com ela, abocanhar uma parcela de seu lucro.
Imagine se a empresa fosse administrada por executivos, profissionais e bem preparados, que detivessem em suas mãos o mais valioso produto brasileiro, o futebol, para dele extrair lucro a seus acionistas.
Em pouco tempo, ter-se-ia uma verdadeira empresa transnacional (popularmente chamada de multinacional), de cores verde e amarela.
Da qual eu teria todo interesse de ser acionista.
E você?



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O que vc colocou no seu post me parece maravilhoso, no entanto tenho uma dúvida. Não é exatamente isso que fazem os clubes ingleses e há críticas duríssimas por parte da torcida? Não se corre o risco de termos um clube “comprado” por alguém cheio de dinheiro que não se importe com o torcedor?
Comentário de Diego — 02/11/08 @ 10:52
Diego: sim, há clubes ingelses que abriram seus capitais. A abertura de capital implica uma série de deveres e obrigações, a respeito dos quais falarei na próxima coluna. Falarei também sobre sua preocupação maior, o fato de um oportunista adquirir o controle da companhia e desprezar tradição, torcedores etc. Isto se resolve se a maioria das ações forem de titularidade do clube.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 02/11/08 @ 23:30
Meu amigo, eu tenho toda certeza, os dirigentes dos clubes e principalmente o SR, Ricardo teixeira, estão igual ao incrivel Ruck, verdes de raiva. Ora você acha que eles vão querer perder uma mamata dessas.Presidentes de clubes de futebol deve ser uma profissão e tanto, pois lá só tem rico, ou tem algum mendingo presidente de algum clube? Se eles não tem salario eles vivem de que? de doações? mendingando na porta dos estádios? Abraços.
Comentário de jose cicero — 02/11/08 @ 11:52
José: não estou propondo acabar com mamatas de um ou outro dirigente; estou falando de um novo modelo para o futebol brasileiro. Por ser novo, implicará mudanças. E aí você está correto, pois os “mamateiros” farão de tudo para evitá-lo. Do que vivem os dirigentes atuais, eu não sei - provavelmente têm negócios que lhes permitem dedicar alguns anos de suas vidas ao clube. Mas os futuros diretores de companhias abertas viverão da remuneração que lhes aprovar a assembléia geral de acionistas.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 02/11/08 @ 23:39
Excelente texto. Propostas muito boas, porém muitas podem ocorrer sem necessariamente incluir a abertura do capital. Esta seria excelente para atrair milhões na abertura do capital, dinheiro que falta à maioria dos clubes. Contudo, este caminho exigiria transparência, algo que jamais os atuais dirigentes têm interesse. Vejo, contudo, uma oportunidade de ouro para aquele clube que sair na frente, especialmente aqueles que estão sem recursos.
Comentário de Mauricio — 02/11/08 @ 16:45
Verdade que algumas das propostas independem de abertura de capital, Maurício. Mas, se se adotar um modelo como o proposto, o tratamento mudará: deixará de ser algo feito por pessoas que dedicam algumas horas por semana a seus clubes de coração, e passará a ser algo realmente orientado a resultado. E ao lucro. Por fim, concordo que aquele que sair na frente abrirá uma longa vantagem sobre os demais. Gostaria que fosse logo. Precisamos desta experiência.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 02/11/08 @ 23:47
Os dirigentes, e todo mundo envolvido com futebol, poderiam ganhar muito mais dinheiro se fossem honestos, mas eles pensam tão pequeno que não enxergam isso.
Comentário de Eric — 02/11/08 @ 16:51
Eric: alguns deles são muito bons, e poderiam ser eleitos para comandar a empresa. Já outros …
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 02/11/08 @ 23:48
Não se precipite, Rodrigo.
Ser acionista da CBF?
Responda-me: Você compraria um carro usado do Ricardo Teixeira?
Por consequência, daria dinheiro na mão dele, comprando acões da “empresa” que ele gere?
Garanto-lhe que eu, não.
Comentário de Luiz Antonio — 02/11/08 @ 22:35
Luiz Antonio: caso indicado para presidir a empresa, ele passaria a ter de respeitar uma série de regras, assim como todo e qualquer diretor de empresa cujas ações são cotadas em bolsa. Ou seja, deixaria de ser o dono para tormar-se o “agente” dos acionistas. Eventuais desvios seriam punidos. Aliás, a CVM é cada vaz mais eficiente na repressão a tais atos. Por isso, Eric, eu compraria, sim, ações da empresa.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 02/11/08 @ 23:54
Como essa empresa combateria a pirataria de sua marca sem se colocar numa situação antipática com seu próprio aficcionado? Afinal há os que preparam seus distintivos com prazer e orgulho. Há os que não podem comprar um produto oficial e sustentam um mercado paralelo. Não é essa massa que se quer atingir com a venda dos vários produtos licenciados descritos?
Não foi essa uma das razões do fracasso da parceria do Corinthians com a HMTF?
Comentário de Claudio M. A. Prado — 02/11/08 @ 23:15
Claudio: Do mesmo modo que todas as demais. Aliás, os problemas que você aponta não se restringem ao futebol; há áreas mais importants, como a cultura - caso não se admita que o futebol é uma espécie do gênero cultura - que vivem o mesmo dilema. Para dar-lhe uma reposta direta, eu diria, então, que tentaria manter uma gama de produtos para todas as classes. Aí está a magia do futebol: encaixa-se em todos os níveis sociais.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 02/13/08 @ 18:24
Eric?????
No caso da interferência da CVM, na gestão da “empresa” presidida pelo RT - desejada interferência de repressão, aliás -, eu esperaria para comprar na crise que isto causaria. Nesse momento as ações estariam em baixa e, com a possível troca de gestor……….
Comentário de Luiz Antonio — 02/12/08 @ 7:04
Se você acertar o momento, ficará rico.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 02/13/08 @ 18:26
Meu caro, a CBF está mais para uma monarquia, RT herdou o trono!!!! Quem faz parte da corte recebe as regalias. Você acha que ele iria se interessar em ser ‘rebaixado’ para agente…E os Euricos “aqui mando eu”??? Panecéia acreditar que eles se proporiam a fazer alguma mudança…não, toda mudança de regime se deu por pressão popular, revolução ou golpe de estado…A Fifa é outro ‘Reino’ também….O Governo, idem…Todos interessados somente em defender seus territórios, e se der, tirar uma casquinha, pegar uma carona…E para o povo, “brioches”…
Comentário de mestrezeuss — 02/12/08 @ 8:46
O modelo proposto ignora pessoas e sues privilégios. Caso o debate evolua, é muito provável que os atuais dirigentes sejam os primeiros a cocombatê-lo. Mas isso não impede que se tente, que se debata publicamente. E caso um, apenas um projeto seja executado, poderá atrair outros. E aí quem não se adaptar, estará fora do jogo.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 02/13/08 @ 18:32
É bom comentar no blog de vocês pq sempre temos o retorno. É uma atitude de respeito para com o leitor. Parabéns pelo blog, a todos!
Comentário de Diego — 02/12/08 @ 9:35
Diego: Ao Birner, especialmente, que exige de seu time respeito com quem comenta. E a quem comenta, pela qualidade das intervenções.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 02/13/08 @ 18:35
“Não existia planejamento e os craques e títulos vinham em função de uma série de fatores externos ao controle de quem, em tese, deveria planejar, comandar, decidir e direcionar os negócios profissionalmente.
Por isso que clubes como o Corinthians e o Palmeiras amargaram longos anos sem vencer campeonatos importantes.”
QUER DIZER QUE A FILA DO CORINTHIANS E A DO PALMEIRAS SE DEVEM A ISSO?
POR ACASO, OS TIMES QUE GANHAVAM OS TÍTULOS, NAS RESPECTIVAS ÉPOCAS, ERAM ADMINISTRADOS DE MODO DIFERENTE?
E QUANTO ÀS FILAS ENFRENTADAS POR SÃO PAULO E PELO SANTOS? NÃO FORAM CITADAS POR QUÊ? FORAM OCASIONADAS POR OUTRAS RAZÕES?
Comentário de João — 02/12/08 @ 14:14
Vamos por partes:
(1) Sim
(2) Não. Mas acho que deixei claro que ganharam, em minha opinião, porque alguém sempre tem de ganhar. E não como resultado de um planejamento - pode ter havido exceção, eu sei, mas ela não importa.
(3) Citei o Corinthians porque o utilizei, logo adiante, para mostrar - ou tentar mostrar - que a abertura de capital lhe cairia bem; e o Palmeiras para indicar que há luz no fim túnel. Ou seja: quando se faz algo sério, com certo profissionalismo, os demais ficam para trás. O São Paulo, dos que conheço, é disparado o melhor gerido. Mas tem suas falhas. Se abrisse o capital, teria tudo para ser um sucesso mundial fora dos campos, assim como o Milan, o Real e o Manchester.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 02/13/08 @ 18:51
Caro Rodrigo,
Existe no Brasil algum clube que discute, ao menos por alto, a transformacao em empresa e abertura de capital?
Ah, excelente texto!
Comentário de Ramon Varjao — 02/12/08 @ 20:42
Ramon: que eu saiba, não.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 02/13/08 @ 18:36
Rodrigo!
Seu texto e suas propostas são dignas de aplauso! Concordo que a abertura de capital é uma saída maravilhosa para a “pindaíba” financeira dos nossos clubes. Contudo, antes de fazê-la, o clube interessado terá de se reestruturar e, também, saldar todas as dívidas que tem com o fisco, para não representarem ainda mais risco do que uma empresa normal representa num mercado como o nosso. Para atrair bons investimentos, é preciso estar “redondinho”! O fisco age com alguma parcimônia com relação aos clubes, como podemos acompanhar historicamente. Se abrirem seus capitais, pode ser que a “teta seque”, como dizem meus compadres do sítio!
Um grande abraço e, SUCESSO!
Comentário de José Nantala! — 02/21/08 @ 16:32
Meu caro José Nantala: o clube não abriria o capital; mas uma empresa, consituída de bens capitalizados pelo clube. Logo, as dívidas continuariam no clube. Isso não quer dizer que eles, os clubes, endividados como estão, não devam se reorganizar. Claro que sim. Porém, a “profissionalização”, como aqui se sugere, ocerre em um outro nível.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 02/25/08 @ 23:30
Rodrigo, grande texto! parabéns!
Comentário de Gil Rossetti — 02/23/08 @ 1:42
Obrigado, Gil.
Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 02/25/08 @ 23:30