O Poder de Controle na CBF - II

24 Out

Direito

Por Rodrigo Monteiro de Castro

Dissemos no post da semana passada que a CBF não é controlada por seus associados.

Quem exerce este poder - o poder de controle - é o Presidente.

Hoje verificaremos como.

O art. 41 do estatuto aponta as competências de seu Presidente. Dele, isoladamente.

Primeiro exemplo.

Ele escolhe os membros da diretoria que independem de eleição. Aí está uma interessante oportunidade para oferecer um bonito título a aliados: diretor da CBF. Aliás, até 10 títulos. É que o art. 45 prevê: uma diretoria de até 10 membros.

Outro exemplo.

Compete ao Presidente nomear e dispensar os membros da Comissão de Arbitragem.

A importância desta Comissão é inegável: ela verifica o cumprimento das leis do futebol, promove a capacitação dos árbitros e escala árbitros e auxiliares.

Daí a dificuldade de se admitir a independência de seus membros em relação a quem os nomeia: afinal, será que os membros das comissões teriam independência para ignorar eventuais indicações de um ou outro árbitro para conduzir esta ou aquela partida?

O ideal seria que a dúvida não existisse.

Mais um exemplo.

O Presidente constitui as delegações que representam a CBF, no Brasil ou no exterior.

Ou seja, corre-se o risco, se não houver seriedade nas indicações, de se montar verdadeiro trem da alegria, ocupado por pessoas mais interessadas em aproveitar o “rega-bofe”.

Cuja conta poderá ser cobrada. Nas assembléias gerais da CBF.

Há ainda outros exemplos.

Compete ao Presidente assinar qualquer contrato que crie obrigação para a entidade ou a desonere de obrigação.

É verdade que algumas empresas adotam regra similar. Porém, executivos que abusam deste poder costumam ser penalizados. Por outro lado, muitas empresas preferem instituir certo grau de controle, determinado que contratos sejam assinados por pelo menos dois diretores. Isso quando não se exige prévia aprovação do conselho de administração, por envolver valor ou matéria relevante.

Uma prática recomendável. Principalmente às pessoas jurídicas sem fins lucrativos que administram recursos expressivos.

E o último exemplo (há outros, não citados neste post): atribui-se ao Presidente competência para decidir a respeito da concessão de auxílio pecuniário às filiadas e aos clubes.

Verdade.

Por isso tudo, é inegável que o Presidente da CBF, seja o atual ou os futuros, tem como principal aliado, para manter-se no poder por mandatos sucessivos, o próprio estatuto da entidade. Inclusive porque não há limite de reeleições.

Demonstra-se, assim, que o estatuto é mesmo um mecanismo formal de perpetuação de poder.

Se isto é bom ou ruim, é um outro problema.

Pessoas que consideram a fórmula ruim perguntam-se, então: há solução?

Sim, mas depende da vontade dos associados.

Àqueles que pretendam ao menos refletir a respeito, aí vão algumas sugestões:

(i) restringir o número de reeleições;

(ii) dar peso diferenciado às federações em função de títulos nacionais obtidos por seus associados, limitando-se a 6 o número máximo de votos nas assembléias gerais (limite previsto na “Lei Pelé”);

(iii) reformar o estatuto para prever que algumas das competências do presidente sejam transferidas a órgão colegiado (portanto, para presidência);

(iv) transferir para Assembléia Geral competência para decidir temas que possam influenciar direta ou indiretamente resultados de partidas de campeonatos, como a nomeação e dispensa de membros da Comissão de Arbitragem.

Escrito por Rodrigo Monteiro de Castro às 13:19 Rodrigo Monteiro de Castro

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8 Comentários »

O importante é que mesmo com tudo isso nosso São Paulo continua mostrando competência e capacidade para brilhar e conquistar em definitivo a taça do Brasileiro.
RUMO AO PENTA
abs

Boa sorte nesta nova empreitada.

GUGA

Comentário de GUGA — 10/24/07 @ 13:48

Guga: O São Paulo é sem dúvida um dos clubes mais bem administrados do país. Talvez o melhor. Veja o tema da reeleição, por exemplo: o fato de haver alternância facilita o controle de atos de administrações anteriores. Sem falar que permite renovar o que estiver defasado. Abraço,

Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 10/25/07 @ 12:46

 
 

http://www.iffhs.de/?b002ec70a804f4cd003f09
Entra ai galera e vote no melhor do mundo.Eu já votei no Cristiano Ronaldo um jovem com muito futuro pela frente e que joga em um verdadeiro time de primeiro mundo.

Comentário de Marcelo Firmiano dos Santos — 10/24/07 @ 15:27

 

Ou seja, modelo da CBF é exatamente o anti-modelo, este estatuto é tudo que não poderia ser.
Uma pessoa tem totais poderes sobre um dinheiro que não é seu, uma marca que não é sua, e sem fiscalização de ninguém, tudo previsto em estatudo!?!?!
Poderia ser o estatuto de uma empresa familiar, daquela em que o fundador utiliza os recursos próprios para sua fundação e se mantém como presidente…

Comentário de mestrezeuss — 10/24/07 @ 17:46

É mais ou menos por aí.

Aliás, esta é a realidade de muitas federações e clubes também.

E é por isso que grandes clubes, como o Corinthians, passam por situações como as que conhecemos.

É que o estatuto facilita o surgimento do controle gerencial, dificultando, em contrapartida, a atuação da oposição.

Pretendo abordar o tema em um post futuro.

Abraço,

Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 10/25/07 @ 12:56

 
 

Rodrigo,
Seu texto é fabuloso. Linguística e “conteudamente”! hehehe! Eu, assim como Vitor Birnner e Juca Kfouri, sou um fiel consumidor do “Chá-de-cadeira: o chá dos que esperam a queda de Ricardo Teixeira”.
Veja só, no nosso principal produto de exportação (quase um contrato de “know-how” extensivo a tantos gênios), do qual, pela Teoria de David Ricardo, obtemos as maiores “Vantagens Comparativas”, que possuímos frente aos outros países, quem manda é um Fanfarrão desses… Ugh! Poderíamos ser monopolistas em termos de futebol… Boeing e Airbus ficariam no chinelo…

Grande abraço!

Comentário de José Nantala — 10/24/07 @ 23:41

 

Boa tarde, Nantala.

O tema da “exportação” de jogadores é mais complexo.

Reflexo de problemas sociais e econômicos.

Sociais porque o futebol passou a ser a única alternativa para meninos menos favorecidos; econômico porque os clubes, mantendo-se amadores, não têm como competir com empresas de futebol estrangeiras.

Falemos do econômico, apenas.

Não há um dono do negócio. Mas vários (predisentes de clubes, por exemplo). Todos eles exercendo o poder em suas “bases”.

E todos exportando seus bens mais preciosos: os jogadores.

Abraço,

Comentário de Rodrigo Monteiro de Castro — 10/25/07 @ 13:10

 

Mestre Rodrigo,

As competências do Presidente da CBF, pelo que você demonstrou, são mais ou menos as mesmas de um chefe do Poder Executivo, ou de um Diretor-Presidente de sociedade empresária. Ou seja, não são tão exorbitantes. O problema, como você apontou bem, é o aparelhamento político, para o qual acho que o modelo institucional atual não oferece solução. É preciso uma liga de clubes forte e autônoma, passo largo e cuja implementação já foi tentada e falhou outrora. Mas nem por isso deve ser abandonado. No fundo, nossa maior carência, na minha modesta opinião, é de material humano: encontrar 15, 20, 25 cartolas de bom nível, ao mesmo tempo, nos maiores clubes do País. Quem sabe, um dia…
Abraço

Comentário de Rodrigo Campos — 10/25/07 @ 18:03

 

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